Sociedade sem noção

Coluna: Dependência Química
Autor: Rossana Brasil

Muitos têm alarmado que o mal do século XXI é a depressão e/ou a ansiedade. Porém, apesar de tanta gente padecer destas psicopatologias, considerada, e com razão, já uma epidemia, o que tem gerado esta doideira de tais formas de adoecimento? Uma gama de respostas nos são apresentadas, sem contudo, lograr-se um consenso.

E aí uma outra vertiginosa série de indicações, tanto para os que já destas padecem, bem como a fim de evitar que outros tantos adoeçam, igualmente são impostas. Façam atividades físicas regulares, meditem, adira a um credo religioso, tome medicações, evite estresse e muitas outras do gênero. É óbvio que tudo isso de fato, contribuem sim, para uma melhor saúde física e mental.

No entanto, as causas para tanto sofrimento reside no modelo de sociedade que prima pela aparência em detrimento da essência do ser. Como já bem pontuou, meu mui amigo, o escritor, Odailson da Silva: "somos seres desejantes dos desejos do outro (s). E eu lhe ratifico. Você faz o que gosta? Veste-se como quer? Frequenta os lugares que lhe dão bem-estar? Tem os amigos que quer ter? A primeira resposta de qualquer um é sim. Entretanto, lamento lhe decepcionar! A verdade é, na esmagadora maioria dos casos, peremptoriamente: não. Explico.

O proeminente sociólogo Émile Durkeim já assentia: "a sociedade exerce uma força de coerção sob o indivíduo, determinando sua forma de pensar, agir e sentir." É isso mesmo. Desde nossa mais tenra idade, somos impulsionados, convencidos daquilo que devemos buscar para ser ter felicidade.

Infelizmente, até mesmo as nossas escolas – lugar de educação dos homens -, trabalham pautadas neste desiderato. Vejo isso até no Judiciário onde nosso DEUS JUIZ , não gosta de ser chamado de SERVIDOR PÚBLICO , mas são SERVIDORES PÚBLICOS È FATO . .É só olhar e ver (nem todos veem, alguns apenas enxergam), que a escola de nossos tempos, consoante sua grade curricular e formação de seus docentes, tinham com pilar-mestra a formação ética, moral e até espiritual do homem.

Para tristeza nossa, todas faliram, principalmente os pais. Pais que reclamam depois de uma palestra porque o palestrante diz que filhos não tem quartos, e não tem mesmo ( pois filhos não pagam IPTU ) filhos usam os quartos das casas dos pais .Educaçao de pais preguiçosos. Estas foram substituídas pelas escolas-empresas, as que formam nossos crianças e jovens, apenas para passar no vestibular. Vejam os outdoors espalhados pela nossa cidade. Isto é ou não uma demanda de mercado, de supremacia do ter em detrimento do ser.

E sendo verdade, o que podemos esperar deste país, senão o nefasto, desumano e injusto quadro atual. As razões estão no esfacelamento dos laços afetivos, declínio das familiares, descrédito das instituições, inexistência de fé na política, falta de uma espiritualidade concreta, dentre outros. O mal do século é outro o mal é essa sociedade esquisita , tudo na base do politicamente correto ( que chatisse !)

Portanto, antes que me apontem, como uma pessimista ou prosélita deste, vou recorrer-me a um gênio brasileiro, Renato Russo, para discordar dos tais especialistas, concordando que o mal do século é a solidão. Nunca estivemos tão sós em meio a multidões. Temos milhares de amigos nas redes sociais, mas quando o sapato aperta não temos com quem contar, ou raríssimos a fim de demonstrar sua confessa amizade. No meu dia a dia escuto : Dra. Me sinto só! Pessoas que conseguiram tudo aquilo que lhe disseram ser garantia de uma vida feliz, mas sem sentir-se como tal e, sem sequer ter alguém de carne e osso e alma com quem partilhar.

O homem é um ser gregário, já sabiamente afirmou alguém. Assim, na célere e irrefreável revolução tecnológica e da informação, ou buscamos o afeto, ou continuaremos a nos manter adoecidos e adoecendo tantos outros. E se para depressão, insônia e ansiedade há remédios, para a solidão, o remédio e compartilhamento do que temos e, sobretudo, do que realmente somos: humanos!



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Published:  11 Mar 2020