
Nós fazemos escolhas. Não como quem escolhe um caminho ensolarado num mapa turístico, mas como quem escolhe sobreviver. A angústia nos obriga, todos os dias, a decidir — mesmo quando estamos cansados, mesmo quando não sabemos, mesmo quando o coração treme. Escolher não é um luxo da liberdade; é uma exigência da existência.
Gabriel García Márquez disse que todos os dias precisamos nascer. E talvez ele estivesse falando exatamente disso: de acordar carregando a angústia antiga que não se resolveu ontem e, ao mesmo tempo, pressentindo a angústia nova que já sabemos que também não resolveremos hoje. Vivemos entre restos e promessas quebradas. Entre o que ficou mal cicatrizado e o que ainda nem sangrou, mas já dói.
Na cultura do desempenho e das respostas rápidas, somos ensinados a resolver, superar, fechar ciclos. Mas um analista — esse sujeito que escuta o que ninguém quer ouvir — nos ensina algo radicalmente diferente: não se trata de resolver a angústia, mas de aprender a suportá-la. Suportar não é desistir; é sustentar. É continuar vivendo mesmo sabendo que certas dores não têm cura definitiva.
Se nossa cultura fosse menos fantasiosa e mais honesta, talvez isso fosse ensinado nas escolas. Talvez falássemos do amor sem maquiagem. Talvez disséssemos que o encanto do casamento começa a ruir quando o narcisismo e a onipotência morrem. E isso é grave, porque é exatamente aí que nascem as neuroses de angústia. O amor deixa de ser um espelho que nos adora e passa a ser um encontro com um outro real — falho, limitado, humano.
No casamento, repete-se quase como um feitiço: “até que a morte os separe”. Mas que morte é essa? Não é apenas a do corpo. É, sobretudo, a morte do narcisismo. A morte da fantasia de que o outro existe para nos completar, nos salvar, nos admirar sem falhas. Amar exige enterrar a onipotência. E poucos estão dispostos a esse luto.
É possível sobreviver ao casamento? Sim. Mas não como quem sobrevive a um naufrágio agarrado a destroços. A sobrevivência no amor acontece quando há consciência. Quando se reconhece que o outro não é um ideal, mas um sujeito humano — pendurado na própria angústia. Um ser atravessado pelo medo da morte do filho, pelo pavor da fome, pela insegurança da pobreza, pelo susto diante da violência, pelo terror silencioso de perder tudo.
Amar alguém assim é amar alguém vulnerável. E isso assusta. Porque nos obriga a abandonar a fantasia de controle.
O sujeito narcísico não suporta isso. Nele, não há espaço para a angústia real, porque a angústia denuncia a falta. O narcísico não sente fome, não sente medo, não sente limite — ou finge não sentir. Vive como se fosse invulnerável, como se o mundo lhe devesse algo. Mas onde não há angústia, também não há amor. Há apenas encenação.
O amor verdadeiro nasce quando dois sujeitos reconhecem que não são deuses, que não se bastam, que falham. Amar é escolher, todos os dias, não fugir da angústia do outro. É escolher ficar mesmo quando o encanto cai, mesmo quando o silêncio pesa, mesmo quando o espelho quebra.
Nós fazemos escolhas. E talvez a mais difícil delas seja essa: escolher amar sem a promessa de salvação. Escolher viver com alguém sabendo que não haverá resolução final, apenas a possibilidade — profundamente humana — de suportar juntos aquilo que dói.
E, quem sabe, nascer de novo. Todos os dias.











