Apoio Cultural


Autor: Valentin Santos

UMA REFLEXÃO ECOLOGICA NO BRASIL

   No Brasil, o desenvolvimento constitui-se basicamente num duplo processo de produção da desigualdade em nível social: através do autoritarismo político e do descaso ou destruição sistemática dos recursos naturais disponíveis em abundancia no país. Começamos por destruir os povos indígenas que aqui viviam em paz com a natureza.

Depois, operamos o desenvolvimento através da força de trabalho escrava, destruindo gentes para mover a economia e acumular riqueza para uns poucos. Com a industrialização, continuamos no mesmo caminho, acentuando as desigualdades, concentrando a renda pagando baixos salários, ignorado as condições de vida e de trabalho dos trabalhadores, explorando de forma extensiva e predatória os recursos naturais, incendiando florestas, poluindo rios, lagoas e mares, gerando metrópoles, onde o ar é poluído e milhares de pessoas vivem na miséria.

No Brasil, hoje, reaparecem epidemias que deveriam estar erradicadas há mais de um século, o país se vê frente a outras, novas, que não tem condições de enfrentar como a AIDS. Nas grandes cidades, o ser vivo mais ameaçado de extinção pela violência do próprio homem são as crianças de ruas, que se transformam em alvo de grupos organizados e são assassinadas sob o olhar cúmplice ou complacente do poder público e, ás vezes, da própria sociedade. Na Amazônia, a ação predatória das madeireiras da grilagem, dos grandes projetos minerais, das hidroelétricas gigantescas, coloca em evidencia o quanto se pode destruir de forma talvez definitiva, um bem natural de tal importância e magnitude.

No centro-sul, as atividades agrícolas e industriais desprezam ao extremo as conseqüências de sua atuação sobre i meio ambiente, provocando o desgaste precoce de solos, a poluição de rios, a destruição de florestas. A ausência de reforma agrária, entre outros problemas, tem obrigado a milhares de pessoas a se refugiarem nas grandes cidades, aonde a miséria a degradação do meio ambiente vem como conseqüências inevitáveis.

MP Brasil, a degradação do meio ambiente e da sociedade, das pessoas e da natureza, constitui cara e coroa de uma mesma moeda, de um mesmo estilo de desenvolvimento e da ausência de uma democracia mais ampla. Uma sociedade organizada para beneficiar tão poucos, e com tal nível de exclusão, não tem olhos para ver seus próprios habitantes, e seria quase insano esperar que aqueles que não sabem respeitar os direitos de uma criança possam demonstrar interesse pela preservação das florestas e da fauna.

No Brasil, a defesa do meio ambiente tem de começar pela defesa da própria humanidade, tomando como caminho o da democracia. O Autoritarismo, aqui e em várias partes do mundo, já demonstrou que seu projeto de desenvolvimento não contemplar a maioria das pessoas nem o respeito á natureza. Seu fracasso constitui a nossaquestão ecológica. Resta o outro caminho, aquele que constrói pontes de solidariedade, igualdade e participação, com respeito á diversidade e á liberdade sob um novo olhar, porque não, uma nova emoção.

Afinal, não deve estar tão longe assim o tempo em que olhávamos para o céu em busca de estrelas e de um sentido mais amplo e profundo para nossas vidas.

Valentim Santos
é Ambientalista, Historiador e colunista do site do bairro Antônio Bezerra